Achados e perdidos

Há cinco dias perdi meu celular, um Sony Xperia S - tive que pesquisar para saber de qual modelo se tratava. É um tipo antigo - na acepção atual da palavra, uma vez que o aparelho tinha apenas três anos -, já saiu de linha e estava acompanhado de uma capa de plástico que um dia foi transparente mas está amarelada por conta do tempo. Confesso que não fiquei muito desesperada num primeiro momento. Eu havia pago por ele, os contatos seriam facilmente recuperados através do chip e o mesmo eu pude bloquear com uma simples ligação para a operadora. Até aí tudo bem.
Acontece que, como quase todo grande evento da vida, a gente demora algumas horas e até dias para processar a informação. E assim, dois dias depois, no meio de um jantar de família, eu irrompi em lágrimas. Dentro deste simples e velho celular havia um cartão de memória com quatro mil fotos que contam histórias desde minha faculdade de Direito, meus animais de estimação - inclusive os falecidos -, viagens nacionais e internacionais, início do meu namoro e todos os momentos mais únicos e irretocáveis que vivenciei e pude registrar. Felizmente não precisei me preocupar com o nível de perversão da pessoa que pegou meu celular porque nele não havia nada pornográfico, caso contrário, a exemplo de tantos casos, eu poderia ser mais uma "caiu na web" queimando no inferno da moral e dos bons costumes.
São incontáveis fotos dos meus gatinhos em diversas posições engraçadas, vídeos da minha família, eu e meu namorado rindo sem motivo, comendo, viajando, fotos flagrantes que jamais conseguirei repetir e que eu guardava com todo carinho para imprimir e preservar para a posteridade que agora sabe-se lá Deus por onde andam. Foi uma atitude tão idiota a minha, de colocar o celular embaixo do braço e deixá-lo cair na rua, e ao mesmo tempo tão irreparável que me fez perder todas essas recordações de uma fase da minha vida.
Já perdi várias coisas e sei o quão complexo é ser apegado a algo material. Mas a fotografia transcende a materialidade. Herdei de minha mãe esse apreço. Os armários aqui de casa são forrados de fotos, especialmente de quando eu era pequena, quando tive a sorte de conviver com máquinas de filmes fotográficos. Assim, exigindo revelações para que pudéssemos vê-las, acabávamos por garantir as lembranças. Já meu irmão caçula veio na época das digitais e também tem muitas fotos, embora em CD's e, é claro, tenhamos perdido algumas porque quando o assunto é máquina, nenhuma está livre de pane.
Eu sei que pequei. Eu sei que em pleno século XXI todos devemos ter back up dos arquivos, inclusive, no momento em que me dei conta do tamanho do estrago, lembrei de Nina Lemos falando sobre quando ela mesma passou por isso e todos perguntavam "mas como assim você não tinha back up?". Amigos, isso não é algo óbvio. Não para mim. Para ser bem franca, a primeira coisa que pensei foi "eu pequei, deveria ter passado tudo para o computador", e não "eu pequei, deveria ter feito back up".
Agora amargo o arrependimento de não ter feito uma coisa e nem outra, mas não só, também resolvi agir, tratei de conversar com jornalistas, especialmente radialistas, e pedi que contassem essa minha história. Não peço o celular, esse você pode pegar, só quero meu cartão de memória com todas as lembranças dos meus três últimos anos.

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