O amor tem ceratocone
Nos tempos da faculdade coisas bacanas aconteceram. Outras nem tanto, é fato. Contudo, dediquei-me à exegese do ser e dos sentimentos, em grande parte, através de um simples móvel que havia dentro de minha sala de aula. E por julgar este fato singular e, de modo unânime, inesquecível, desenvolverei a respeito dele. Não estranhe, ao móvel não coube função sexual insercitiva em orifícios mal iluminados. Ora, eu queria era que a madeira falasse comigo, entrasse pelas vias mentais, em vez das efêmeras profanações carnais.
Isso posto, prossigamos com meu relato esclarecedor e catártico. Não ao modo dos poetas mortos e velharias de igreja, mas ao meu modo. Ao modo de um apaixonado que encontrou o motivo de sua existência em seu próprio assento, por assim dizer.
Eu sempre fui pálido, magricela, tímido e inteligente. A saber, a inteligência nada mais foi que rota de fuga para desviar de minha aparência as atenções. Os bonitos são mais ouvidos. Mas eu não queria ser ouvido, apenas respeitado. E de fato, bullying não sofri. Chega, o tópico frasal é outro. Como eu dizia, busquei, principalmente na puberdade, o desenvolvimento intelectual e almático, até que, em uma bela terça-feira de sol, chego a sala e me deparo com algo diferente.
Sempre sentei no mesmo lugar. Fosse aula de cálculo, primavera, inverno ou desenho industrial, sempre fiquei entre os músculos acéfalos de Antônio Armando e os cachos com peitos pesados de Sueli. Árduo nas críticas contra esta sociedade esquizofrênica, eu mesmo era um esquizoide inútil. Até que encontrei uma unha postiça em baixo da minha cadeira.
Era escarlate, carmim, cor de paixão, cor de Deus sabe o quê. Cor de mil coisas. Cor de eu amando, encontrando um outro jeito de encarar as coisas e por fim, não vi a hora passar, os professores chegando e saindo, tudo tanto faz, como fez. Capra falaria horas sobre como o fato dessa unha ter vindo parar aqui não era obra do acaso, éramos eu e ela. Eu e a unha na universidade, em casa, no banheiro, no banho, na cama, no sofá, no carro, em tudo.
Por duas semanas eu sabia ter encontrado o amor da minha vida. Logo soube que no período noturno a turma do segundo período de Artes Visuais ocupava a sala. Pesquisei sobre Rembrandt, Cézanne, Picasso, e daí por diante. Quis compreender sobre a multi-semiose das artes, os números que divergem os tons, e qual a ideia que a faca inserida por da Vinci na Santa Ceia transmite.
Duas semanas e três dias depois, não mais do que isso, encontro um fio louro sobre a cadeira. Era de um loiro genuíno, puro de espírito, vasto de sentido. E tomado pela ansiedade do momento, aos comichões que me tremiam os ossos e pela timidez convertida em coragem, escrevi na mesa:
- Em qual aula está agora?
Treze semanas de agonia. Não me respondeu. Talvez a zeladora tivesse limpado e a essas alturas eu já bebia uísque cowboy, fumava Marlboro vermelho e decaía no rendimento intelectual. Por que me negaria deste modo? Por quê, santa deidade de cuja existência eu duvido? Diga-me! Diabos!
Como outro sinal capriano, prevenindo-me da peremptória sucumbência, obtive resposta:
- Aula de história da arte. Qual o seu nome?
Que grafia estupenda! Que delicadeza no traçado! Sutil como um cravo, suave como uma rosa. Orgástico foi meu deleite diante de tal ocorrência.
Oito semanas e cinco dias de recados e combinamos um cinema. Neutro, despretensioso, mas matreiro. Já o Mendes Campos disse, o amor pode começar no cinema. Bem, talvez tenha dito "terminar", mas não importa. Começo e fim são ambas as pontas de uma mesma coisa.
Faltei a aula para preparativos específicos, tais como remoção de pelos do nariz e enceramento de sapatos. Concluímos as conversas pelo celular, por mensagens. A sua voz eu ainda não havia ouvido, mas não demoraria muito.
Cheguei 15 minutos antes à sessão, e esperei absolutamente só em meio aos demais. Eu e uma tulipa, apenas. Eu e meu amor, meu pensamento, minha fantasia e o cutucão solene que senti no ombro direito.
Virei-me devagar, como que sorvendo cada segundo daquele momento de ansiedade misturado com medo, reticências e ressalvas. Sentindo certo aroma de patchouli e chá vermelho, deparei-me com um rapaz alemão parrudo e travestido de mulher. E vi em seus olhos o abismo mais sedutor e profundo no qual a vida toda, mesmo sem saber, eu quis me jogar.
Escrito em 12 de novembro de 2012.
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