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Mostrando postagens de dezembro, 2014

O amor tem ceratocone

Nos tempos da faculdade coisas bacanas aconteceram. Outras nem tanto, é fato. Contudo, dediquei-me à exegese do ser e dos sentimentos, em grande parte, através de um simples móvel que havia dentro de minha sala de aula. E por julgar este fato singular e, de modo unânime, inesquecível, desenvolverei a respeito dele. Não estranhe, ao móvel não coube função sexual insercitiva em orifícios mal iluminados. Ora, eu queria era que a madeira falasse comigo, entrasse pelas vias mentais, em vez das efêmeras profanações carnais. Isso posto, prossigamos com meu relato esclarecedor e catártico. Não ao modo dos poetas mortos e velharias de igreja, mas ao meu modo. Ao modo de um apaixonado que encontrou o motivo de sua existência em seu próprio assento, por assim dizer. Eu sempre fui pálido, magricela, tímido e inteligente. A saber, a inteligência nada mais foi que rota de fuga para desviar de minha aparência as atenções. Os bonitos são mais ouvidos. Mas eu não queria ser ouvido, apenas respeita...

A universalização da teoria do cu

Dentre todos os vocábulos e verbetes da língua portuguesa, "cu" é um de meus favoritos. Primeiramente por ser conspícua sua capacidade de conduzir o ser humano ao erro e, não obstante, de compilar inúmeras ofensas às regras gramaticais em apenas uma sílaba. Cristaliza com competência o hábito de acentuar palavras terminadas em "u" - tais como cupuaçu, e, pasmem, até com nome de cidade, como Foz do Iguaçu, seus munícipes conseguem cometer equívocos, e não só eles. Conquanto, o tópico frasal é o lado mais usual da palavra. Trata-se dessa convenção que determina um cu mundial, corroborado pela incessante necessidade de culpar e fazer com que alguém sofra. É no mínimo intrigante o modo como atribuímos tantos sentidos a essa pequena sílaba - que literalmente designa um pequeno lugar. O cu é paradoxal por excelência ao contrapor seu tamanho - real, fonético, e assim por diante - e seu tamanho simbólico. Essa versatilidade toda é interessantíssima, uma vez que perpass...

Recepção

Mal cheguei em casa, depois de um estafante primeiro semestre de faculdade, e o Arthur já me recepciona do seu típico e peculiar jeito. Como por exemplo, me convidando para lavar a louça, e ele se dispondo a secar. Até aí tudo bem. Estava lavando na paz de Deus quando ele começou: - Amanda, sabe o que fazem na minha escola? Eles perguntam assim: "Você já assistiu o filme onde as burras dizem não?". - Não assisti. É legal? Ele só assentiu com a cabeça, me lançando um olhar escarnecedor e logo mudou de assunto. Eu devo estar ficando velha. - Você sabe falar português de Portugal como eu? - disse puxando o sotaque que não tem. - Claro que sei, já viajei lá pra perto - respondi exibindo o sotaque que também não possuo. - Onde? - Espanha. - Mentira! - Fui sim.  - Você foi só pro Chile. - E para a Espanha também. - Tá, mas tem um lugar onde eu fui e você não! A Frimesa! É bem especial e você nunca terá a oportunidade - rebateu com seriedade. Frimesa é o fr...

O eu 30%

Na vida, a procrastinação e a auto sabotagem andam juntas e agarradas com a maioria dos mortais. São artifícios dos perfeccionistas como um gesso que os protege da decepção. Quando você vive a fazer tudo meio em cima da hora, ou não muito bem feito por outros motivos, sempre há a possibilidade de manter aquele "eu 100%", que só não deu o ar da graça porque alguém andou se sabotando. Mas ele existe. E existirá sempre, ou enquanto você não der seu máximo em alguma coisa. Outra coisa que pode acontecer é você oferecer o melhor de si, não obter êxito, e continuar buscando desculpas. Em última instância, você reconhece que não é tudo aquilo, reúne os caquinhos e tenta outra vez. Eu sempre fui uma grande sabotadora e procrastinadora, além de preguiçosa e sortuda. Na escola sempre me dei bem, nem muito, nem pouco, mas passava com folga e boa. Quando não ia bem, nem triste eu ficava, sabia que aqueles resultados jamais refletiram meus esforços. Quando não passei no vestibular da f...

Arthur, o retorno

Depois de algum tempo sem postar nenhuma batatice do Arthur, hoje venho com um combo. Primeiro, no almoço de sábado, todos tranquilos ao redor da mesa quando meu pai fala de ir para a chácara e o Arthur responde: - NÃÃÃO! - berrando. Eu rebati amolando um pouco: - Mas pare de gritar! Assim você me assusta, e daí imagina se eu me engasgo e morro? - Nem vai fazer falta. - É, mas, se eu morrer, o Luiz que você tato gosta não vai mais vir nos visitar. - A gente enterra você no quintal e pronto. Isto posto, passemos ao almoço de domingo, quando foi almoço do meu aniversário para a família, pois, apesar do Arthur não me dar grande valor, existem parentes que ainda querem participar da minha vida e me amam. Então meu pai preparou uma costela de gado em um forno que ele mesmo fez, e é como se fosse uma estufa. A carne ficou desmanchando e maravilhosa, mas para o Arthur, nada é suficiente. Começou a comer quando eu cheguei para sentar e comer, e perguntei: - Está gostoso? - ...