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Mostrando postagens de 2014

O amor tem ceratocone

Nos tempos da faculdade coisas bacanas aconteceram. Outras nem tanto, é fato. Contudo, dediquei-me à exegese do ser e dos sentimentos, em grande parte, através de um simples móvel que havia dentro de minha sala de aula. E por julgar este fato singular e, de modo unânime, inesquecível, desenvolverei a respeito dele. Não estranhe, ao móvel não coube função sexual insercitiva em orifícios mal iluminados. Ora, eu queria era que a madeira falasse comigo, entrasse pelas vias mentais, em vez das efêmeras profanações carnais. Isso posto, prossigamos com meu relato esclarecedor e catártico. Não ao modo dos poetas mortos e velharias de igreja, mas ao meu modo. Ao modo de um apaixonado que encontrou o motivo de sua existência em seu próprio assento, por assim dizer. Eu sempre fui pálido, magricela, tímido e inteligente. A saber, a inteligência nada mais foi que rota de fuga para desviar de minha aparência as atenções. Os bonitos são mais ouvidos. Mas eu não queria ser ouvido, apenas respeita...

A universalização da teoria do cu

Dentre todos os vocábulos e verbetes da língua portuguesa, "cu" é um de meus favoritos. Primeiramente por ser conspícua sua capacidade de conduzir o ser humano ao erro e, não obstante, de compilar inúmeras ofensas às regras gramaticais em apenas uma sílaba. Cristaliza com competência o hábito de acentuar palavras terminadas em "u" - tais como cupuaçu, e, pasmem, até com nome de cidade, como Foz do Iguaçu, seus munícipes conseguem cometer equívocos, e não só eles. Conquanto, o tópico frasal é o lado mais usual da palavra. Trata-se dessa convenção que determina um cu mundial, corroborado pela incessante necessidade de culpar e fazer com que alguém sofra. É no mínimo intrigante o modo como atribuímos tantos sentidos a essa pequena sílaba - que literalmente designa um pequeno lugar. O cu é paradoxal por excelência ao contrapor seu tamanho - real, fonético, e assim por diante - e seu tamanho simbólico. Essa versatilidade toda é interessantíssima, uma vez que perpass...

Recepção

Mal cheguei em casa, depois de um estafante primeiro semestre de faculdade, e o Arthur já me recepciona do seu típico e peculiar jeito. Como por exemplo, me convidando para lavar a louça, e ele se dispondo a secar. Até aí tudo bem. Estava lavando na paz de Deus quando ele começou: - Amanda, sabe o que fazem na minha escola? Eles perguntam assim: "Você já assistiu o filme onde as burras dizem não?". - Não assisti. É legal? Ele só assentiu com a cabeça, me lançando um olhar escarnecedor e logo mudou de assunto. Eu devo estar ficando velha. - Você sabe falar português de Portugal como eu? - disse puxando o sotaque que não tem. - Claro que sei, já viajei lá pra perto - respondi exibindo o sotaque que também não possuo. - Onde? - Espanha. - Mentira! - Fui sim.  - Você foi só pro Chile. - E para a Espanha também. - Tá, mas tem um lugar onde eu fui e você não! A Frimesa! É bem especial e você nunca terá a oportunidade - rebateu com seriedade. Frimesa é o fr...

O eu 30%

Na vida, a procrastinação e a auto sabotagem andam juntas e agarradas com a maioria dos mortais. São artifícios dos perfeccionistas como um gesso que os protege da decepção. Quando você vive a fazer tudo meio em cima da hora, ou não muito bem feito por outros motivos, sempre há a possibilidade de manter aquele "eu 100%", que só não deu o ar da graça porque alguém andou se sabotando. Mas ele existe. E existirá sempre, ou enquanto você não der seu máximo em alguma coisa. Outra coisa que pode acontecer é você oferecer o melhor de si, não obter êxito, e continuar buscando desculpas. Em última instância, você reconhece que não é tudo aquilo, reúne os caquinhos e tenta outra vez. Eu sempre fui uma grande sabotadora e procrastinadora, além de preguiçosa e sortuda. Na escola sempre me dei bem, nem muito, nem pouco, mas passava com folga e boa. Quando não ia bem, nem triste eu ficava, sabia que aqueles resultados jamais refletiram meus esforços. Quando não passei no vestibular da f...

Arthur, o retorno

Depois de algum tempo sem postar nenhuma batatice do Arthur, hoje venho com um combo. Primeiro, no almoço de sábado, todos tranquilos ao redor da mesa quando meu pai fala de ir para a chácara e o Arthur responde: - NÃÃÃO! - berrando. Eu rebati amolando um pouco: - Mas pare de gritar! Assim você me assusta, e daí imagina se eu me engasgo e morro? - Nem vai fazer falta. - É, mas, se eu morrer, o Luiz que você tato gosta não vai mais vir nos visitar. - A gente enterra você no quintal e pronto. Isto posto, passemos ao almoço de domingo, quando foi almoço do meu aniversário para a família, pois, apesar do Arthur não me dar grande valor, existem parentes que ainda querem participar da minha vida e me amam. Então meu pai preparou uma costela de gado em um forno que ele mesmo fez, e é como se fosse uma estufa. A carne ficou desmanchando e maravilhosa, mas para o Arthur, nada é suficiente. Começou a comer quando eu cheguei para sentar e comer, e perguntei: - Está gostoso? - ...

Caráter pode vir sem acento

Ao longo da minha vida, já perdi a conta do número de pessoas que me afirmaram ter preocupações quanto ao próprio português ao falar comigo, por medo do meu julgamento. Isso me levou a refletir um pouco e a contar uma história interessante, que significa muito para mim. Minha mãe é professora de língua portuguesa, e é boa nisso. Não digo por ser quem é, mas porque já assisti suas aulas e sei do seu esforço e dedicação para tanto. Meu pai – quase que em contrapartida - é mecânico de caminhões, e também é muito bom no que faz. Aprendeu praticamente sozinho, por necessidade, a fim de sair da completa miséria. Eles se casaram em 1989, na época ele tinha 24 anos e a quarta série completa. Por incentivo da minha mãe, foi até o segundo ano do ensino médio, quando parou e a apoiou em seu mestrado e outras coisas, tomando conta de mim e do meu irmão recém nascido. Em um dia desses, enquanto ajudava meu irmão na tarefa, ele me perguntou se a palavra aquário se escreve com “c” ou com “q”, e ...

O quid pro quo de Analícia

“E um dia os homens descobrirão que esses discos voadores estavam apenas estudando a vida dos insetos...” Mário Quintana Cheguei em casa do trabalho, cansado. Fui direto pro banho, uma ducha gelada, gostosa. Lavei os cabelos, recém aparados, ou não tão recém assim. Havia ido ao barbeiro um dia antes. Gosto da sensação dura dos pelos da cabeça após serem cortados. Beira o sensual. Havia uma mensagem na secretária eletrônica. Era do ilustre senhor José Carlos Brito – vulgo: Zé Cabrito. - Essa é a minha secretária eletrônica. Assim que puder, talvez, retornarei seu recado. Bip. “Aqui é o inspetor José Brito, espero que compareça logo a delegacia ou teremos de entrar em contato de um modo mais enérgico. Obrigado.” Passeei pela sala de pijama, descalço, sentindo bem os azulejos tão caros e bem escolhidos por mim mesmo quando comprei o apartamento. Ainda pago o financiamento de 60 vezes do qual a minha esposa foi avalista. Uma breve gota d’água escorreu do cabelo molhado, passou ...

O apocalipse mora ao lado

Estou no apartamento do meu "cara metade" completamente estarrecida com a ruidosidade de suas vizinhas. Eu, que já vivi de tudo em termos auditivos com vizinhos, em verdade vos digo: muito melhor é ouvir ato libidinoso do que briga. Já nem trancamos a porta por pensar ser necessário acudir as moçoilas a qualquer momento. A impressão que tenho é de que logo mais elas se engalfinharão e nós nos abalaremos até lá em socorro, num tom de preservação da integridade física e psicológica das vizinhas, na melhor prática da boa vizinhança. Por outro lado, e se as deixássemos digladiar até a morte ou próximo dela? Assim como no reino animal, uma liderança seria estabelecida, com a consequente subserviência da outra. Ou ainda, poderíamos contar com a racionalidade inerente ao ser humano e seu bom senso facultativo, no intento de que os ruídos cessem permitindo o descanso merecido dessas duas carcaças exaustas. Eis que me pergunto, esse raio de bom senso não anda facultativo demais? ...

Comprei uma Bíblia

Cheguei na faculdade atrasada e me deparei com aqueles comuns livrinhos azuis do Novo Testamento distribuídos pela sala. Pus um dentro da mochila e lá ficou. Mais cedo, organizando minhas coisas, me deparei com ele novamente. É incômodo porque não vou à igreja e também não lerei o dito livro, seria eu uma filha bastarda de Deus? Pus na estante e fui tomar banho. Comecei a relembrar certas coisas. Sou uma pessoa extremamente curiosa, principalmente no que tange o léxico. Coisa que fui entender outro dia, quando meu namorado chegou com a seguinte informação: sabia que a área do cérebro ativada pela descoberta de novas palavras é a mesma do sexo e das drogas? Acredito. O conhecimento emociona e, a despeito do que dizem, ele é a bênção, não a ignorância. Mas, se sou tão curiosa, por que nunca li a Bíblia? Justamente o livro que tatuou a humanidade, do que eu tenho medo afinal? Lembrei de um rapaz que conheci, ele me contou que vivia em uma espécie de "seminário", algo para s...

Mundo: além de redondo, pequeno

O mundo é pequeno e redondo, dá voltas e promove encontros inusitados. Sempre. Todos temos alguma história dessas para contar. Hoje contarei a minha. Há uns 7 anos atrás eu sofri um acidente, atropelei um carro parado. Acidente do qual lembro sempre pois a única cicatriz que tenho em minhas pernas é no joelho esquerdo, e foi feita nesse dia. Estava andando de bicicleta e me distraí mexendo na alça da bolsa, quando me dei conta havia aparecido um carro na minha frente. Não deu tempo de nada, bati, quebrei o farol, cortei o joelho e risquei o capô. A situação foi ainda mais enfadonha porque o dono do carro estava saindo de casa e me viu destruindo seu veículo. Ele me disse que tinha uma festa de aniversário, e talvez tenha deixado de ir, a julgar pelo imprevisto. Foi muito gentil e me levou para dentro da sua casa, onde sua mãe, uma senhorinha simpática, me acalmou e fez curativo até minha mãe chegar - brava feito uma onça. Agimos com honestidade, meu pai foi mais tarde encontrá-lo ...

Questão de segurança pública

Pela primeira vez meu irmão saiu da cidade para jogar com seu time de basquete. O placar ficou 36x4 para os donos da casa, mas isso não pareceu abalar muito o Arthur. Por volta de meio dia cheguei no colégio para buscá-lo e tivemos uma breve conversa: - Oi Arthur! Como foi no jogo? - Nossa, posso respirar aliviado, agora estou seguro. - Que? - Nenhum terrorista de São Paulo botou fogo no ônibus. Ah, a gente perdeu de 36x4. - Credo, mas você acha que terrorista vai colocar fogo em ônibus de criança? - Mas lá dentro tinha adulto e pré-adolescente também, os professores e os meus amigos do 7º ano. Você não entende nada, isso é questão de segurança pública! - bradou com o dedo em riste.

4 Ivetes e 1 José

A escrita é fantástica pois, dentre outras coisas, me permite uma solidariedade interessante. Empresto minhas palavras às personagens desenrolarem seus causos e dramas. Então que eu, socióloga de boteco, psicóloga de bêbado e benzedeira de tormenta, tenho hoje uma verdadeira saga para narrar. A saga de José Alberto, que me foi contada por uma de suas personagens, minha colega de classe. Causo tragicômico e interessante, filosófico realmente, dos dramas amorosos da vida real. Não como as minhas babosices de costume. Não, meus caros, aqui o furo é mais embaixo. Eis-me aqui, portanto, escrivã das peculiaridades da existência, repassando essa conversa. Que começou da seguinte maneira: havia neste mundão velho sem porteira um homem chamado José Alberto - nome modificado para proteger os envolvidos. José Alberto foi muito abençoado por Deus com saúde e sensualidade, com o dom da conquista e a beleza de Adônis. Com voz de veludo e sua calça cáqui, arrancava suspiros incautos das inocentes m...

A crise da meia-idade

Meus pais tiveram apenas dois filhos. Eu, em 1994 e Arthur, em 2005. Temos exatamente 10 anos e 3 meses de diferença. Ele é o neto caçula, tanto do lado paterno quanto materno. E é, também, o temporão que nasceu quando nossos pais estavam perto dos 40. Como sou consideravelmente mais velha, pude acompanhar, e ainda acompanho, seu desenvolvimento bem de perto com certa reflexão e influência, quase como um estudo de caso, que me faz entender um pouco mais do mundo e da vida. Crescer tem disso e quem tem a oportunidade de observar de perto também. Um dia alguém me disse que a primeira inspiração do bebê ao nascer era sofrida, pois trata-se de um ar abrindo caminhos antes ocupados por outras coisas. Na vida das crianças cada dia é uma inspirada dessas. Na nossa, daqueles que já descobriram que Papai Noel não existe, a incidência dessas descobertas viscerais é reduzida. A gente já anda mais calejado, já não concede o mesmo brilho ao mundo. Frida Kahlo que diz, em uma carta, sentir por sa...

Minha casa, minha vida

Na semana em que fiquei trancada do lado de dentro do apartamento do meu namorado, em que fiquei trancada para fora da minha casa, e da dele, e que minha cozinha alagou, na qual eu caí e me machuquei enquanto limpava - fato que me fez sentar torto a semana toda -, ouvi de uma colega: - Sua casa é zoada, né Amanda? Sim, é bem verdade. Hoje, para completar meu calvário de universitária, mulher guerreira que mora sozinha e dorme com a peixeira embaixo do travesseiro, meu vaso entupiu. Como num passe de mágica. Ele estava ótimo e, de repente, entupiu. Juro, nem cocô dentro tinha. Pois bem, fiz meu excelentíssimo buscar soda cáustica e me pus a preparar a mandinga. Com direito a luvas de borracha, balde e cabo do rodo para misturar, coloquei 1 quilo de soda em 5 litros de água. Nunca lembrei tanto daquela música da Elis Regina que diz "é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre (...) é preciso ter fé na vida". Joguei tudo no vaso, joguei em cima água...

Faxinolândia

Caros mancebos jurubebas - ou nem tanto -, resolvi transferir do Facebook pra cá meus escritos, conforme outrora. Aqueles velhos relatos e anedotas que por lá jaziam, aqui poderão ser encontrados com menos pressa e mais capricho. O título provém do meu profundo carinho e curiosidade pela palavra "faxinal". Perto da minha cidade, Toledo, há uma outra denominada "Faxinal do céu", na verdade não é perto, mas digamos que seja, a título de descrição, uma vez que estão, ambas, no mesmo ente federativo. Não sei vocês, mas aos meus ouvidos soa quase pornográfica. E é tamanha eroticidade em uma mesma palavra que, somando-se a palavra "céu", é quase uma blasfêmia herética o nome dessa cidade. Minha mãe foi muitas vezes para Faxinal, coisa de cursos e tudo mais. Mas nem isso, e as explicações dela - vide dicionário: campo coberto de mato curto -, sossegavam a efervescência  das minhas ideias.  Depois eu comecei a associar com a vida campeira do gaúcho, dos bagua...