O eu 30%

Na vida, a procrastinação e a auto sabotagem andam juntas e agarradas com a maioria dos mortais. São artifícios dos perfeccionistas como um gesso que os protege da decepção. Quando você vive a fazer tudo meio em cima da hora, ou não muito bem feito por outros motivos, sempre há a possibilidade de manter aquele "eu 100%", que só não deu o ar da graça porque alguém andou se sabotando. Mas ele existe. E existirá sempre, ou enquanto você não der seu máximo em alguma coisa. Outra coisa que pode acontecer é você oferecer o melhor de si, não obter êxito, e continuar buscando desculpas. Em última instância, você reconhece que não é tudo aquilo, reúne os caquinhos e tenta outra vez.
Eu sempre fui uma grande sabotadora e procrastinadora, além de preguiçosa e sortuda. Na escola sempre me dei bem, nem muito, nem pouco, mas passava com folga e boa. Quando não ia bem, nem triste eu ficava, sabia que aqueles resultados jamais refletiram meus esforços. Quando não passei no vestibular da faculdade que eu queria, nem fiquei tão mal, não havia me dedicado - e quando me dediquei, consegui. Sempre me escondi por detrás do meu velho e surrado discurso de abominação aos métodos fragmentadores de ensino e aprendizagem, que nos tatuam com notas e exigem pouco de análise e muito de decoreba.
Assim vivi até o dia em que resolvi largar mão dessa vida e me tornei um ser sem expectativas. Mudei de curso na faculdade e resolvi não esperar grandiosidade e nem imaginar que eu fosse grande. Fernando Sabino dizia que, na adolescência, a gente sofre um grande choque quando descobre que não é genial, mas no máximo talentosinho. Levo essa sabedoria comigo sempre e, até mais cedo, achava que eu já tinha aprendido a lição.
Nunca fui boa em matemática, logo, deixei a desejar em química e física. Mas nunca me incomodei, jamais dei valor a essas disciplinas. Então, munida do sonho renascentista de intelectualidade plural, migrei para a Medicina Veterinária e sabia que agora sim essas matérias seriam fundamentais, especialmente a química, especialmente a bioquímica.
Comecei o curso e, de fato, a matéria não é simples e a professora é exigente. Muitos colegas tirando notas excelentes e eu na média-baixa da coisa. Observei que esses colegas se esforçavam muito, além de, possivelmente, possuírem uma afinidade maior com o conteúdo - mas não gosto desse último argumento, acho que tira um pouco o mérito. Pensei, bom, agora vou testar como é dar o máximo de si, sem procrastinar, sabotar ou imaginar um "eu 100%". Resolvi descobrir o quão por cento eu ando sendo.
Estudei. Muito. Arduamente, incansavelmente, com dezenas de páginas de resumos e me sentia pronta a dissertar sobre glicólise, ciclo de Krebs e a cadeia de transporte de elétrons. Ainda assim, humilde, esperava, quando muito, 60 pontos na prova. Mesmo que lá no fundinho ainda existisse a esperança de que um "eu 100%" desse o ar da graça e provasse para mim mesma que venci a química e que posso sim ser uma criatura dotada de saberes humanos e exatos.
A prova veio com 14 questões, das quais, 12 eram dissertativas. Ótimo, pensei. Escrevi quase que um Novo Testamento, na confiança de que fazia o certo, no entendimento de que havia compreendido as perguntas todas. Mas, ainda assim, esperava apenas 60 pontos. Se o segredo da felicidade é não ter grandes expectativas, eu estava no caminho.
Há pouco obtive o resultado dessa odisseia intelectual que me custou 20 horas de estudo, dezenas de folhas e todas as esperanças que couberam neste ser de média estatura. Tirei 30. Eu não estava doente no dia, não tive nada de coisa nenhuma, exceto, 30. E não me martirizo, sinceramente, não faço isso. Mas me sinto como aqueles homens que fugiram da caverna de Platão e apanharam ao voltar com novidades. Levei uma surra monumental e mereço repouso, regado a estudos para a prova de exame.

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