A crise da meia-idade
Meus pais tiveram apenas dois filhos. Eu, em 1994 e Arthur, em 2005. Temos exatamente 10 anos e 3 meses de diferença. Ele é o neto caçula, tanto do lado paterno quanto materno. E é, também, o temporão que nasceu quando nossos pais estavam perto dos 40. Como sou consideravelmente mais velha, pude acompanhar, e ainda acompanho, seu desenvolvimento bem de perto com certa reflexão e influência, quase como um estudo de caso, que me faz entender um pouco mais do mundo e da vida. Crescer tem disso e quem tem a oportunidade de observar de perto também.
Um dia alguém me disse que a primeira inspiração do bebê ao nascer era sofrida, pois trata-se de um ar abrindo caminhos antes ocupados por outras coisas. Na vida das crianças cada dia é uma inspirada dessas. Na nossa, daqueles que já descobriram que Papai Noel não existe, a incidência dessas descobertas viscerais é reduzida. A gente já anda mais calejado, já não concede o mesmo brilho ao mundo. Frida Kahlo que diz, em uma carta, sentir por saber tudo, ter perdido a inocência. E é assim com todo mundo, do primeiro porre ao coração partido ou ao saldo vermelho na conta do banco. A última façanha do meu irmão foi sobre isso. Mas, diferentemente das outras, ela não é engraçada.
Quando nasci, meus pais estavam casados há 5 anos e queriam muito um filho. Depois de mim, também não foi fácil fazer outro, apesar de ser uma vontade. Quando o Arthur nasceu, 10 anos depois, inesperado, a família tinha um ritmo diferente e minha mãe fazia mestrado e trabalhava na faculdade durante a noite. Ele teve menos dos meus pais em tempo - de vida e do cotidiano -, e mais de mim, que cresci sozinha e passei a curtir absurdamente um irmão em casa. A primeira conclusão dele acerca dessa conjuntura, aconteceu ano passado, quando, durante uma crise de choro, ele disse:
- Eu sou o caçula. Vocês todos estão envelhecendo e eu vou ficar aqui sozinho. Vão morrer antes.
Eis aqui alguém descobrindo a efemeridade da vida e concluindo, por si só, que a cronologia da existência é implacável. Um dia ele ainda descobrirá que, pior do que isso, é notar como a ordem das coisas pode ser invertida, sendo a morte mais dura ainda. Depois disso, mais precisamente semana passada, ele passou a mão pela pele enrugada do rosto da minha mãe e disse:
- Você está velhinha, não vou ter muito tempo com você. A Amanda teve mais, ela ficou com a melhor parte.
E essa é uma afirmação que me faz ter vontade de colocá-lo sob uma redoma de vidro e protegê-lo de tudo e todos. Impossível, lógico. A perda da inocência faz parte da vida, afinal. E essas são as primeiras de muitas outras descobertas, talvez tão duras quanto.
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