Caráter pode vir sem acento
Ao longo da minha vida, já perdi a conta do número de pessoas que me afirmaram ter preocupações quanto ao próprio português ao falar comigo, por medo do meu julgamento. Isso me levou a refletir um pouco e a contar uma história interessante, que significa muito para mim.
Minha mãe é professora de língua portuguesa, e é boa nisso. Não digo por ser quem é, mas porque já assisti suas aulas e sei do seu esforço e dedicação para tanto. Meu pai – quase que em contrapartida - é mecânico de caminhões, e também é muito bom no que faz. Aprendeu praticamente sozinho, por necessidade, a fim de sair da completa miséria. Eles se casaram em 1989, na época ele tinha 24 anos e a quarta série completa. Por incentivo da minha mãe, foi até o segundo ano do ensino médio, quando parou e a apoiou em seu mestrado e outras coisas, tomando conta de mim e do meu irmão recém nascido.
Em um dia desses, enquanto ajudava meu irmão na tarefa, ele me perguntou se a palavra aquário se escreve com “c” ou com “q”, e se tinha acento. Ele não tem, necessariamente, orbigação de saber disso. Meu pai veio de uma família paupérrima e a educação sempre foi segundo plano. Hoje ele é um excelente mecânico com quase 50 anos de idade, mais de 30 de profissão, dois filhos e não o julgo por não saber escrever direito. Poderia voltar a estudar e se formar doutor em alguma coisa? Poderia. Mas provavelmente não vá e isso não muda nada do que eu disser aqui.
Ele possui outras grandes qualidades e é uma pessoa formidável. Que fique claro, novamente, não digo por ser meu pai, até porque poderia apontar defeitos nele - como por exemplo, ter votado no Aécio Neves -, mas trata-se de um homem honrado, sem ranços homofóbicos, racistas ou machistas, o que, por si só, já desqualifica qualquer julgamento sobre seu português pobre. O ponto principal é: o domínio da língua materna não designa caráter, competência ou algo além de “domínio de língua materna”.
Cresci com minha mãe me corrigindo e me presenteando com livros. Mas nunca a ouvi corrigir meu pai. Inclusive, talvez por isso estejam casados há 25 anos. Porque há um respeito mútuo no que tange os pontos fracos. Há o reconhecimento de que todos temos pontos fracos.
Eu não me importo se você vier falar comigo e colocar “mim” antes de verbo, ou qualquer outro erro, por dois motivos principais: primeiro, eu não domino a língua portuguesa, cometo muitos erros e jamais afirmei que não o fizesse; segundo, cada um tem sua carga histórica, necessidades e prioridades, de modo que não cabe a mim, e a ninguém, julgar esse tipo de coisa. O que sempre defendi é que precisamos repudiar a mediocridade, devemos buscar evoluir sempre, mas isso não quer dizer que tenhamos como premissa a necessidade de ostentar uma erudição linguística.
Ao contrário do que possa parecer, me reservo ao direito de não viver embebida em um orgulho cafona, com ares de superioridade mesquinha. Não sou nada disso, e sou tão ignorante quanto deveria ser uma moça normal de quase 20 anos, que pegou exame em Anatomia Veterinária I e não entende nada de cálculos matemáticos. Arrogar para si um “Professor Pasquale durante correção de provas”, sair achando bonito reconhecer erros e se arrepiar com eles é simplesmente pobre e eu me arrepio é com isso.
Um bom português é admirável e exigível sob certas circunstâncias. Porém, convenhamos, julgar os demais por conta de deficiências nesta área é auto-afirmação. Porque quem precisa diminuir os outros para parecer grande, pequeno é.
E se quiserem algum conselho dessa jovem moçoila, diria que a humildade é a melhor opção de todas. Digo isso com conhecimento de causa, como uma “orgulhosa em recuperação”, que aprendeu dentro de casa como ser humilde faz bem. Creio que essa qualidade é a mais linda e útil de todas. Ela nos livra de pesos, de ornamentos e responsabilidades. É prático ser humilde. E para complementar, deixo a acepção denotativa da palavra, a qual me refiro agora, para que saibam exatamente o que quero dizer, “Virtude com que manifestamos o sentimento de nossa fraqueza”. Porque fraquezas todos temos, e mascará-las ou subestimá-las é inútil e engenhoso.
Texto escrito em 17 de novembro de 2014, e dedicado à Juliana, moça simpaticíssima e inteligente que foi última pessoa a se sentir inibida pela minha fama de "entendida de português" - espero que tenha sido a última mesmo.
Muito importante ,,pois todos temos raízes fortes de ancestrais,com sua linguagem simples e muito educada à qual lhes proporcionava perfeito entendimento..... para o simples entendedor meia palavra basta....dizia meu pai.....Parabéns.........bjsss
ResponderExcluirOlha só quem lê meu blog! Amo você, vó. Beijos!
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