O quid pro quo de Analícia
“E um dia os homens descobrirão que esses discos voadores
estavam apenas estudando a vida dos insetos...”
Mário Quintana
Havia uma mensagem na secretária eletrônica. Era do ilustre senhor José Carlos Brito – vulgo: Zé Cabrito.
- Essa é a minha secretária eletrônica. Assim que puder, talvez, retornarei seu recado. Bip. “Aqui é o inspetor José Brito, espero que compareça logo a delegacia ou teremos de entrar em contato de um modo mais enérgico. Obrigado.”
Passeei pela sala de pijama, descalço, sentindo bem os azulejos tão caros e bem escolhidos por mim mesmo quando comprei o apartamento. Ainda pago o financiamento de 60 vezes do qual a minha esposa foi avalista.
Uma breve gota d’água escorreu do cabelo molhado, passou pela nuca, desceu pelo sulco formado pela coluna vertebral, entrou pela calça, chegou ao ânus. Causou coceira. Nada anormal. Foi um geladinho agradável até. Escolhi uma música legal, comecei ouvindo Jorge Ben Jor. Engenho de dentro. Anima-me, ou não. A definição de animado nunca compreende introspecção, não é? Gozado.
Deitado no sofá observei meticulosamente meus companheiros de residência. Alguns espectadores de minha lâmpada – daquelas que não iluminam nada, mas que compramos por serem ecologicamente corretas -, mosquitinhos gozados, de asas redondinhas ou ovais, pareciam trazer a família toda para assistir ao cinema. Ao espetáculo das luzes. A torre Eiffel de minha sala: uma lâmpada. Ou seria um cinema mesmo? Cinema mudo dos animais. E que cor de luz eles preferem? Acho melhor indagá-los a respeito.
O ser humano foi capaz de criá-la, dar-lhe cores, e construir tantas outras proezas, que luz mais prodigiosa! Fiat Lux! E os mosquitinhos? Que fizeram eles? Algum mercenário dentre os bichos, quem sabe uma lagartixa, mais forte fisicamente, de cérebro mais evoluído, e certamente mais astuta, dobrou e pôs no bolso tais artrópodes que dominaram a terra a água e o ar. Mas tão fracos fisicamente, desfavorecidos mentalmente. Ora, ora, insetinhos miseráveis! Nada construíram!
Enfim, essa ordem taxonômica em que colocam os animais e mitificam seu surgimento é interessante, mas não cabe aqui. E a lagartixa, já não cobrara impostos, taxas, tributos para permitir tal visão? Que espetáculo hipnotizante não seria esse de observar luminescências desconhecidas?
Confesso que sempre achei cruéis as armadilhas que meus avós mantinham no sítio. Usavam gaiolinhas com luzes lá dentro, e o mosquitinho – inócuo, ludibriado – entrava para o espetáculo e nunca mais saía. E a prole? Quantos não ficaram órfãos! Cansei de assistir calado tamanha chacina moral e física. A imagem do pai preso na jaula em uma armadilha tão boba, como não ficava para o mosquitinho-de-asas-redondinhas-filho?
Apaguei a lâmpada da sala. E eles continuaram lá! A luz da lua me permitiu ver isso. E será que a Lua também os hipnotiza? Quantos já não se botaram nessa jornada fantástica e utópica de busca à luz do luar? Os apaixonados é que parecem hipnotizados. Sabe-se, no entanto, que a lua é uma das vilãs do mundo espetacular das luzes. Engana os apaixonados bem como um engana ao outro. Ela rouba as atenções ao refletir a luz solar. A verdadeira luz que nos mantém vivos. E por que os insetos não vão até ela? Buscar um calor a mais. Quem sabe se organizem em grandes caravanas idealizadas por lagartixas famintas ou grilos solteirões. Não sei.
Eles têm uma complexidade imprevisível até para os biólogos, creio eu. De cabelo, finalmente, seco, após tantas divagações, fui alimentar minha carcaça. A mente já estava farta. Tocava no rádio Salão de Beleza, do Zeca Baleiro. A música fala do mundo velho e decadente que não sabe admirar a verdadeira beleza humana. Uma deliciosa crítica a cultura midiática tendenciosa, aos corpos curvilíneos e academizados.
Na cozinha tratei de mim com uma lasanha Perdigão congelada, garanto que não é como na propaganda. Ela não fica tão boa e nem tem como enganar dizendo que levou horas no preparo. É como o que os grilos fazem com os mosquitinhos de asas arredondadas quando os aliciam e colocam dentro de ônibus rumo à lua. Uma mentira. Sua massa mais parece clara de ovo cozida e o recheio deve ser de frangos que presenciaram a crucificação de Jesus cristo! Sem exageros!
Meu gato, em contrapartida, parecia deliciar-se com Whiskas! Essa sim eu recomendo. Comeu tanto que, nessa noite, sem dúvidas, deixaria os ratos da casa em paz. Seu nome? Seu nome é Medina. O idealizador do Rock in Rio. Bem, queria que meu gato tivesse um nome louvável. De que adianta chamá-lo de Foucault se ninguém conhece? E Medina alguém conhece? Se eu citar a origem e falar do Rock in Rio, sim. E se eu citar o Panopticon? Ninguém entende. Mas, deixemos pra lá essa minha cultura de realejo.
Fui pro quarto. Observei meu Guerra e Paz na cabeceira, fica pra amanhã. Procrastinação. Eu sei o que é isso! Já dizia minha mãe, coitada, faleceu de ninguém sabe. Acho que de amor. Diz meu velho pai que ela fugiu com o tosquiador de ovelhas da vila. Enfim. Herdei do meu pai a má sorte amorosa.
Deitei-me sozinho, na calada da madrugada, no derradeiro horário de meu dia. Ouvi mais sons. Efetivamente eu não moro sozinho. Além de insetos, os gatos na calha passeavam para lá e para cá freneticamente. Como pequenas pipocas estourando no telhado. Espalhando as folhas repousadas. Gatos. Gosto deles. São misteriosos. Traiçoeiros.
Não rezei. Ah, se for pra pedir sei que não serei atendido. Deus vem de dentro da gente, não vem? Ou está dentro de nós, como queira. Então o que está em mim Ele já conhece, o que eu iria dizer, também. Prefiro não gastar saliva.
Estou naquele ponto, quase dormindo, mas então... ÃHR! – acho que essa é a onomatopéia ideal para definir um susto – caí do abismo! A psicologia explica que esse é o estágio tênue entre o sono profundo e a vigília – essa vigília que é tão confusa quanto as Livírias, Rivílias e Irlívias da literatura. Lembrei no susto: esqueci de escovar os dentes!
Escovei com uma pasta que promete milagres: acordar sem o gosto de guarda chuva velho na boca. Completei com anti séptico bucal. Não sei pra quê. Fico me enxaguando todo depois. Aquilo arde! Deito novamente, dessa vez o poste de luz aqui da rua voltou a funcionar e, como estou sem blackout na janela, a luz – que é até conveniente – fica roçando as paredes e meus frascos de perfume e desodorante da penteadeira, cutuca meu crachá do escritório e ilumina de leve o microondas da cozinha que permite ser visto da minha cama.
Olho para o teto – para variar. Acho que o espetáculo recomeça. As mercenárias lagartixas, como na vida humana, saem da surdina à noite. Para traficar, aniquilar, sodomizar, comer e roubar os mosquitinhos de asas arredondadas. E quem será a polícia? Tamanha corja, tamanho crime não podem continuar! Mas é a lei da selva, não é? Os humanos criaram o SBP automático, a estricnina, a naftalina, dentre outros meios de deter os animaizinhos. E eles, por eles mesmos, como nós, sucumbem ao sistema.
Meu gato – Medina – parece observar tudo também. Está deitado na janela. Fiz questão de colocar grades para sua segurança e também para garantir que mesmo em crises de depressão profunda ou pós-bebedeira nem eu nem ele nos mataríamos, afinal, quer morte mais mequetrefe do que se atirar de uma janela do 5º andar, sem lirismo ou fantasia alguma?
Quem é a polícia animal? Seriam os gatos? Os cães? Meu finado cão, Selmo – sem significado mais profundo do nome, a não ser pela minha mãe que era Selma – e o Medina, brigavam incessantemente para ver quem comeria uma lagartixa gigante de barriga preta.
Na verdade, ela é branca, talvez albina, - os biólogos que me corrijam - mas ao comer uma barata, sua pelezinha fina deixou transparecer a escuridão da presa. Selmo morreu depois de 23 anos comigo. Foi triste, mas eu superei. Nada que um clonazepam não faça.
Foi quando de repente, não mais que de repente – para manter a moda literária do clichê – uma centopeia passa perto da lagartixa! Mas que encontro de titãs! Penso cá com meus botões que uma centopéia daria um excelente meio de transporte animal. Será que já não lucra com isso? Não, eles ainda não criaram moeda como nós. Não são tão satânicos.
E carregam a função da invisibilidade. O máximo que fazemos é – quando se tornam visíveis as nossas visitas – comprar aerossóis e pastilhas e naftalinas. Não sei. Não mato esses coitados. Até hoje, o máximo que matei foi Analícia, minha ex-mulher. Mas ela merecia. Um genuíno quid pro quo no seu sentido mais britânico. Sorte a dela, que mesmo depois de tanta maldade e de tão morta ainda tem formigas para lhe acariciar os lábios. É a lei da selva, não é?
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