O apocalipse mora ao lado
Estou no apartamento do meu "cara metade" completamente estarrecida com a ruidosidade de suas vizinhas. Eu, que já vivi de tudo em termos auditivos com vizinhos, em verdade vos digo: muito melhor é ouvir ato libidinoso do que briga. Já nem trancamos a porta por pensar ser necessário acudir as moçoilas a qualquer momento. A impressão que tenho é de que logo mais elas se engalfinharão e nós nos abalaremos até lá em socorro, num tom de preservação da integridade física e psicológica das vizinhas, na melhor prática da boa vizinhança.
Por outro lado, e se as deixássemos digladiar até a morte ou próximo dela? Assim como no reino animal, uma liderança seria estabelecida, com a consequente subserviência da outra. Ou ainda, poderíamos contar com a racionalidade inerente ao ser humano e seu bom senso facultativo, no intento de que os ruídos cessem permitindo o descanso merecido dessas duas carcaças exaustas. Eis que me pergunto, esse raio de bom senso não anda facultativo demais?
Há uns 10 anos atrás eu estava no bar do clube com minha mãe - daqueles clubes com piscina aos quais não vou mais por medo de contrair micoses -, quando uma colega recém conhecida sentou-se conosco e depositou seus 7 bilhões de bactérias no gargalo da minha Fanta uva e secou a garrafa. Naquele dia aprendi um dos ensinamentos mais valiosos da minha vida - tamanha foi minha consternação diante do ocorrido -, quando, ao deixar a mesa, minha mãe me disse:
- Nunca repita isso que aconteceu aqui.
Então ficou gravado na minha cabeça, existem limites invisíveis e, em tese, intransponíveis entre as pessoas. E se não existirem, pior para mim que vivo acreditando em um futuro melhor, distante desses tempos difíceis que nos deram para viver com tantas doidivanas ao nosso redor. São limites sonoros, sensoriais ou até mesmo bacterianos, cujo tamanho é aferido pelo bom senso, ou polidez, também serve. Os quais eu quase sempre permito que as pessoas transponham, pois, além de confiar na existência dessa fita métrica moral em todos, sou uma verdadeira pamonha. É duro mas é verdade.
Nessas horas eu penso que nosso maior inimigo não está dentro de nós mesmos, mas sim nesse inferno apocalíptico que se avizinha a passos largos, onde limites - no seu sentido mais lato - são escassos e a paciência, escassa ou não, tende a dilatar-se ad eternum pela manutenção da ordem. Caso contrário, em vez de salvar suas vizinhas da insanidade delas mesmas, irá juntar-se ao time numa luta sangrenta cujo fim é a chegada do síndico.
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