Comprei uma Bíblia

Cheguei na faculdade atrasada e me deparei com aqueles comuns livrinhos azuis do Novo Testamento distribuídos pela sala. Pus um dentro da mochila e lá ficou. Mais cedo, organizando minhas coisas, me deparei com ele novamente. É incômodo porque não vou à igreja e também não lerei o dito livro, seria eu uma filha bastarda de Deus? Pus na estante e fui tomar banho.
Comecei a relembrar certas coisas. Sou uma pessoa extremamente curiosa, principalmente no que tange o léxico. Coisa que fui entender outro dia, quando meu namorado chegou com a seguinte informação: sabia que a área do cérebro ativada pela descoberta de novas palavras é a mesma do sexo e das drogas? Acredito. O conhecimento emociona e, a despeito do que dizem, ele é a bênção, não a ignorância. Mas, se sou tão curiosa, por que nunca li a Bíblia?
Justamente o livro que tatuou a humanidade, do que eu tenho medo afinal? Lembrei de um rapaz que conheci, ele me contou que vivia em uma espécie de "seminário", algo para ser frei ou similar. Disse que um dia resolveu ler O Capital, de Marx, e mudou sua vida radicalmente. Descobriu-se homossexual e decidiu cursar Ciências Sociais, onde tem se revelado um grande aluno, além de radical comunista. Talvez eu tema ser tocada por essa literatura persuasiva que pesca dos incautos aos mais escaldados.
A religião é tachada de muitas coisas e o mundo está repleto de teólogos e especialistas de araque. Tanto os que criticam quanto os que seguem, talvez não compreendam em essência o que é esse fenômeno, e o que tem dentro do livro que o rege. Parecem nascer predestinados a seguir ou a odiar, tatuados como bois com louvor ou amargura do assunto.
Já colocaram tantas palavras na boca de Cristo que o mundo vive numa noite interminável, onde todos os gatos são partos. Aos domingos, na igreja, o padre começa "Naqueles dias..." e duas leituras por final de semana não fazem de nós cristãos de fato. É preciso além da atitude - que em muitos também não existe -, teoria.
Fui adiante, relembrei os motivos pelos quais me afastei da igreja. Primeiro, tive péssimos catequistas. A igreja precisa, sobretudo, investir em suas bases, em seus grupos "sub-17", como diriam no futebol. Não podem nos subestimar oferecendo rapazes despreparados. A infância é a idade da avidez por informação, de alta atividade cerebral e, neste método, angariam gatos pingados.
Eu sumi da igreja depois da crisma. Até tentei fazer trabalhos voluntários no grupo de jovens, mas não era bem minha praia. Não me senti tocada pelo carisma católico, e nem pelas atitudes radicais contrárias a ele. Vivo, desde então, em um limbo religioso sob o chavão "minha religião é praticar o bem". Ora, pode até ser mas, para alguém tão curiosa, que já leu grandes autores que marcaram a história da humanidade, por que não debruçar-se sobre o ortodoxo e dogmático "livro sagrado"? 
Pensei em começar aquele discurso do "na era dos 144 caracteres é difícil ir muito além do superficial". Mentira. O problema não é o Twitter. Há milênios oferecemos nossas mentes para lavagens e aceitamos os caminhos mais fáceis. Como na campanha política, onde é mais fácil acompanhar o coro de seus pares sem questionar demais.
Saí do banho, entrei no site Submarino e comprei uma bíblia por R$17,51. Sem glamour, sem conversão, sem experiências sobrenaturais. Não arrogo superioridade intelectual com isso, mas vejamos quais efeitos esse best seller colossal exercerá sobre mim. Afinal, se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Achados e perdidos

O amor tem ceratocone

A universalização da teoria do cu